sexta-feira, 8 de julho de 2011

À Beira de Água - Eugénio de Andrade


Estive sempre sentado nesta pedra escutando, por assim dizer, o silêncio. Ou no

lago cair um fiozinho de água. O lago é o tanque daquela idade em que não

tinha o coração magoado. (Porque o amor, perdoa dizê-lo, dói tanto! Todo o

amor. Até o nosso, tão feito de privação.) Estou onde sempre estive: à beira de

ser água. Envelhecendo no rumor da bica por onde corre apenas o silêncio.


Os Sulcos da Sede

A folha que não caiu


O jovem e afoito monge budista pergunta ao velho e lento mestre:

- Mestre, o que é o Amor?

- É a folha que ainda não caiu do galho da cerejeira...

- Como assim, mestre? Se ainda não caiu, essa folha não existe –ao menos como folha caída...

- Também o Amor está sempre por fazer-se e nunca se completa.

- Mas a folha acaba caindo...

- Por isso o Amor é a folha que ainda não caiu do galho da cerejeira...


Wilson Bueno
Meu Bem, Meu Mal / Do amor índio e outros amores

Sonhos a Granel - Sylvia Cohin




Se ficas preso ao solo de teu chão,
Não saberás pra que te servem asas
Os sonhos tu não tocas com a mão
E o vôo será bem curto, em nuvens rasas...


Mas se me segues... Parto contigo ao léu
Até que tenhas asas pra voar...


Se voas... parte!


E ensina-me onde há sonhos a granel
E asas pra que eu possa revoar...